BETO GUEDES, MARCUS VIANA/SAGRADO CORAÇÃO DA TERRA e 14 BIS: Ouro de Minas in Rio

Com casa cheia, alguns dos nomes mais (con)sagrados da música mineira, se apresentaram na Beto_Guedes_FOTO_lu_Valiatti_VER_MAIS_FOTOGRAFIA_LUV6458Barra da Tijuca (Zona Oeste do Rio de Janeiro), na noite do último dia 15 de fevereiro. Comemorando mais de 40 anos de carreira e misturando MPB com Rock Progressivo, música sinfônica e popular, baladas e pauleiras, os músicos Beto Guedes (foto), Marcus Viana & Sagrado Coração da Terra e 14 Bis trouxeram um ar bucólico de primavera ao quente verão da cidade, desfilando alguns de seus maiores sucessos.

 

BETO GUEDES + MARCUS VIANA/SAGRADO CORAÇÃO DA TERRA + 14 BIS:
Ouro de Minas in Rio

Km De Vantagens Hall – Rio de Janeiro/RJ
TEXTO: Rick Olivieri
FOTOS:
Michael Meneses e Lu Valliati/VER+Fotografias

Beto Guedes e as canções gravadas em nossa memória e nossos corações
 

Abrindo a noite com a boa e velha energia Rock and Roll, Beto Guedes e banda chegam mandando um medley instrumental de músicas já conhecidas do público, e este Beto_Guedes_FOTO_Michael_Meneses_ROCK_PRESSvai, com maior ou menor velocidade, identificando as citações e entrando no clima para cantar junto ao setlist que viria, composto apenas de hits. A banda, formada pelos ótimos Neném (bateria), Adriano Campagnani (baixo), Ian Guedes (guitarra) e Will Motta (teclados) emenda, sem pausa, na clássica "Balada dos 400 Golpes", ode aos mistérios e encantos da alma feminina, lembrando do prazer da companhia o sentimento que surge com a falta. "Quero bem comigo essa fera. Deusa que tudo reclama. É como eu, bem capaz de perder o seu juízo, tal qual um ser qualquer...". Beto, na guitarra e voz, mostra que não é preciso uma grande extensão vocal para ser um bom cantor.

Em seguida, a emocionante "Canção do Novo Mundo", composta após o brutal assassinato de John Lennon, em dezembro de 1980, na qual letra e melodia se encaixam perfeitamente: "Oh! Nem o tempo amigo, nem a força bruta pode um sonho apagar...". A título de curiosidade, a música foi lançada em 1981, antes da homenagem de Elton John em "Empty Garden" (de 1982). Ambas guardam a coincidência de se referir ao homem que disparou cinco balas no ex-Beatle por metáforas poéticas. Em uma, como um canalha que mata um rei, que deixou profundas raízes. E, na outra, um inseto que causa danos às sementes de um jardim. A próxima é "Pedras Rolando", que remete bem ao espírito hippie dos anos 1960/1970 em versos como "Sou um cão sem dono a tecer os fios da canção. Bicho das esquinas, pedra de amolar. De tirar o limo do som...".

Depois de uma sequência mais serena – a  mais pop de todo o show – com  a bela "Espelhos D'Água", a singela "Gabriel" e "Quando Te Vi" (cantada quase em unísssono pela plateia) - é a vez da contagiante "Maria Solidária", cuja abertura grandiosa, mudanças de ritmo, cadência e métrica da letra flertam nitidamente com o Progressivo feito nos anos 1970, mostrando uma possível influência de bandas como o Yes.

Com um riff poderoso que a introduz e a permeia, Beto e banda levam a viajante "Lumiar", com seu clima bucólico (de Sol, Lua, chuva, cana e pesca) e também setentista, já que o estilo de vida hippie chegou aqui um tanto tardiamente, como era comum na época: "Anda, vem jantar. Vem comer, vem beber, farrear. Até chegar Lumiar. E depois deitar no sereno. Só pra poder dormir e sonhar!".

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Prosseguem nessa "vibe flower power", com "Amor de Índio" e "Sol de Primavera". Esta última tendo a participação especial, ao violino, do grande Marcus Viana, que iria se apresentar em seguida com sua banda.

"Feira Moderna", Beto_Guedes_FOTO_Michael_Meneses_ROCK_PRESSque além de ter uma letra propositalmente hermética (por motivos óbvios:  "Tua cor é o que eles olham, velha chaga. Teu sorriso é o que eles temem, medo, medo..."), vem como uma ligeira mudança num dos arranjos principais e mais marcantes, e que faz lembrar as brincadeiras jazzísticas tupiniquins do, também genial, Hermeto Paschoal. Em "O Sal da Terra", é a vez de outro convidado dar uma palhinha na guitarra e voz: Cláudio Venturini (do 14 Bis) – que, como conta Guedes, era um menino quando o músico conheceu o irmão mais velho, Flávio Venturini, nos tempos do Clube da Esquina. Agora, juntando forças e cantando Beto_Guedes_FOTO_Michael_Meneses_ROCK_PRESSjuntos, eles mostram que "Um mais um é sempre mais que dois...". Já "Lágrima de Amor", do álbum “Alma de Borracha” (clara referência ao “Rubber Soul”, dos Beatles) talvez seja a música do setlist tocado por Beto nesta noite que mais remete e melhor representa o espírito do seu tempo (de Vinícius Cantuária, Roupa Nova, Kiko Zambianchi e outros), trazendo uma atmosfera bem radiofônica dos anos 1980, com as guitarras rítmica/solo e bateria mais dançantes, tão características daquela época, além dos teclados que lembram o soft Rock de Christopher Cross.

Pra fechar, "Paisagem da Janela", da dupla Lô Borges/Fernando Brant, outra cujo clima suave parece tratar de coisas leves mas que, na verdade, possui uma sombria temática cifrada, recurso bastante utilizado em tempos de censura e que provavelmente, muitos jamais pararam para prestar atenção: "Mensageiro natural de coisas naturais. Quando eu falava dessas cores mórbidas. Quando eu falava desses homens sórdidos. Quando eu falava desse temporal, você não escutou...".

Apesar de tantos clássicos, a apresentação foi bem concisa e direta.

Enfim, um show que mostra que o simples e o sofisticado podem se entender em harmonia. Que música, letra e melodia podem ser equivalentes em importância, se somando como ingredientes de uma receita fantástica. Que o que é feito com o coração tem a força de atravessar gerações. Que o que é popular não precisa prescindir da profundidade para alcançar a superfície. E que quem sonhou não valeu se não sonhou demais... Grato, mestre Beto Guedes. “A lição sabemos de cor, só nos resta aprender”.
 

Marcus Viana e Seu Sagrado Coração

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Em seguida, é a vez de Marcus Viana (voz, violino elétrico e teclados), retornar ao palco com os músicos que o acompanham – Augusto Rennó (guitarra), Ivan Correa (contrabaixo),MARCUS_VIANA_e_SAGRADO_CORAÇÃO_DA_TERRA _FOTO_Michael_Meneses_ROCK_PRESS Eduardo Campos (bateria e percussão) e Danilo Abreu e João Viana (nos teclados) – para se apresentar com "Asas", primeira canção do primeiro álbum do Sagrado Coração da Terra (homônimo), lançado em 1984. Com a pegada mais progressiva da noite, a banda entrelaça músicas do Sagrado Coração com vários temas de novela dos quais Marcus Viana fez parte como compositor e instrumentista em sua trajetória solo. Marcus tem uma boa diversidade na colocação da voz, ao cantar, indo de um tom mais suave como o de seu conterrâneo, Milton Nascimento, até notas mais altas e dramáticas, buscadas pelos cantores de ópera. Seu violino, em muitos momentos, faz lembrar Kansas e Jean-Luc Ponty.

Uma das mais facilmente reconhecidas dentro do repertório da noite, "Sob o Sol", tema de abertura da novela "O Clone" é levada de forma perfeita, reproduzindo o ritmo e elementos orientais registrados na trilha sonora da produção. Após, a emocionante "Manhã dos 33", com seu número iniciático, fala de vida e morte, fracassos e vitórias, mente e corpo, amor e ilusões: "Às vezes, eu tenho uma leve impressão, às vezes,  é uma bruta certeza. De que a nossa vida na terra não é bem uma viagem de férias, nascemos pelados, sem nada, sozinhos..." MARCUS_VIANA_e_SAGRADO_CORAÇÃO_DA_TERRA _FOTO_Michael_Meneses_ROCK_PRESSNa sequência, "Raio e Trovão", tema da novela "Ana Raio e Zé Trovão", da extinta Rede Manchete. A forte e bela "Sagrado", outra do álbum de estréia (com participação da cantora Mila Amorim). "A Miragem", que foi  tema romântico da novela "O Clone" e é lembrado por muitos como uma certa tortura, não pelas qualidades técnicas e artísticas envolvidas, mas porque o mesmo era repetido à exaustão ao longo da obra.

As duas últimas são "Canto de Passarinho", lembrando os trinta anos da novela "Pantanal" (também da TV Manchete), com participação da cantora Laiza Morais e, fechando muito bem a apresentação, "Solidariedade", do álbum "Farol da Liberdade". Marcus é cercado de músicos mais que competentes, assim como ele, e é de uma personalidade que nos convida a sair da acomodação e viajar nas asas da música e das palavras cantadas. O momento mais divertido foi quando ele pediu para o técnico de iluminação modificar as luzes que incidiam sobre o palco, em determinado momento, pois se tratava de um show de Rock Progressivo, arrancando risos da platéia.


14 Bis canta sua história, folheando as páginas de um livro bom

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É chegada a hora dos também veteranos do 14 Bis, que também completaram recentemente quarenta anos de carreira, entrarem no palco. Contando com Cláudio Venturini 14_BIS_FOTO_Michael_Meneses_ROCK_PRESS(guitarra e voz), Sérgio Magrão (baixo e voz), Vermelho (teclados e voz) e Hely Rodrigues (bateria), a banda tem praticamente a mesma formação desde o seu início, exceto pela saída de Flávio Venturini, ainda nos anos 1980. E, logo de cara, tendo "Uma Velha Canção Rock And Roll", faixa do primeiro álbum, de 1979, como música de abertura do show, é curioso pensar o quanto o registro vocal de Cláudio é parecido com o de seu irmão. Como Magrão e Vermelho dividem os vocais em auxílio, fica quase imperceptível a ausência de Flávio. Cabe também destacar que Cláudio é um guitarrista de mão cheia e excelente frontman, com boa comunicação junto ao público e movimentação pelo palco - subindo, em determinados momentos, próximo à bateria para saltar lá do alto com seu instrumento. Aliás, a banda toda é profissional e sabe usar a experiência de muitos anos para driblar os eventuais problemas de som que ocorrem aqui e ali, sem comprometer a execução das canções.

Como já era esperado, temos uma sequência de clássicos: "Caçador de Mim", "Canção da América", "Espanhola" e "Todo Azul do Mar". Um pouco menos conhecida do que as anteriores, "Pele de Verão" é um bom retrato do que foi a geração zen-surfismo dos anos 1980 (De Lulu Santos e Blitz – e que se contrapunha aos gritos de protesto dos pós-punks de Brasília e outras cidades do país): "Pele queimada de verão/Riso feito de sol/Perto de cada coração/O dom de ser o 14_BIS_FOTO_Michael_Meneses_ROCK_PRESSmelhor”. "Mesmo de Brincadeira", com seu ritmo Country-Rock, tem participação de Marcus Viana no violino. Aliás, a presença e as técnicas utilizadas por este, fazem lembrar muito Robby Steinhardt (Kansas).

Após as também clássicas "Nova Manhã" e "Natural", mais um momento em que todos cantam junto e em harmonia, com a bela "Planeta Sonho": "A harmonia será Terra/A dissonância será bela/E lá no fim daquele azul/Os meus acordes vão terminar/Não haverá, outro som pelo ar...".

Mas aqueles não seriam os últimos acordes. Depois de uma  breve pausa, a banda retorna ao palco para o bis com "Linda Juventude", provavelmente, a canção pela qual a banda é mais lembrada até hoje, encerrando de maneira perfeita a noite de encontro, fazendo o público relembrar momentos bonitos da vida, que alguns garotos talentosos que se reuniam em determinada esquina de Minas Gerais, ajudaram a inspirar por várias gerações, com muito boa música e a mensagem positiva de que, apesar dos percalços, se atirar na jornada (seja o caminho de pedra, terra, ondas, nuvens ou concreto) vale a pena, "claro como o Sol raiou..."! - Rick Olivieri.
 

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