D2 + SAIN + BK: Sacudindo o Circo Voador pra fechar 2019!

“Eu já sabia... que ia terminar assim”, pensei quando vi a lona do Circo Voador lotada na última sexta-feira (20/12), Marcelo_D2_Circo_Voador_20_12-2019_FOTO_Lorena_Brandpara assistir aos shows de Sain, BK e Marcelo D2. Lançamento do álbum “Slow Flow” em alto estilo. Desfile de “Gigantes” e “Castelos e Ruínas”. E o melhor: Aquela tradicional e maravilhosa excursão ao mundo dos clássicos que misturam Rap com Samba, Jazz com maconha, música boa com banda, resistência cultural e “Amar é para os fortes”. Que noite!

D2 + SAIN + BK: Sacudindo o Circo pra fechar 2019!

TEXTO: Cadu Oliveira
FOTOS: Lorena Brand

Estar no Circo é respirar o ar de liberdade e contracultura que emana do cenário da Lapa. Os arcos, certa hora, contrastavam com a lua em quarto minguante. Foi então que o mestre de cerimônia anunciou: “Quando esse cara nasceu, o Marcelo ainda vendia camisa na rua. Ele acompanhou isso tudo, formou sua família, cresceu com seu estilo próprio. Muito barulho e abram os caminhos para esse cara”, anunciando a chegada de Sain.

Sain - Cria do Bloco 7...

Sain_Circo_Voador_20_12-2019_FOTO_Lorena_BrandO álbum Slow Flow foi super aguardado pelos admiradores mais fanáticos do Bloco 7, grupo formado por MCs do bairro do Catete, Rio de Janeiro. O disco conta com sete faixas e um estilo peculiar de entregar rimas e levadas. Stephan, em companhia de um dobra e um DJ, tocou cerca de 40 minutos, cantando 11 canções e deixando a galera da grade maluca.

“Pra mim é muito importante tá aqui com minha filha, minha família, lançando minha parada”, disse antes de soltar sua parte do hit “Poetas no Topo 2”. Na sequência, “Doses de Adrenalina” faz os mais aficionados cantarem junto.  Entre uma e outra, Sain brinca no mic e pede encarecidamente: “Aperta com tabaco...”, e emenda em uma canção nova à capela. Na reta final da apresentação, esquenta o baile com a faixa título do álbum junto com “Pronto”, de 2016 e fecha chamando Brill, representante do Bloco 7, com um caminhão de gás, energia e algazarra no palco. Refletindo sobre a trajetória do RAP carioca e os designíos do senhor destino, é uma honra poder assistir essa galera voando no Circo. O Flow é slow, mas o tempo ruge, rasga, rosna... só não ronca, porque na “tropa da Juve” ninguém marca touca.

BK - Entre Gigantes...

JBK_Circo_Voador_20_12-2019_FOTO_Lorena_Brandá era dia da final entre Flamengo e Liverpool quando BK entrou no palco. A primeira bala do pente foi “Correria”, canção que avisa em alto e bom tom que “eu vou ganhar, não digam que eu não avisei” – uma mensagem explícita do artista que sabe ter encontrado a caneta mais pesada do pacote. A segunda canção é do álbum novo Gigantes, a escolhida foi “Porcentos”, que já agita o público para abrir as primeiras rodas da noite.

“Eu me sinto um cara muito feliz por estar aqui”, disse BK. O rapper está, atualmente, vivendo um momento de crescimento exponencial de seu trabalho, aliando boas rimas e muita criatividade ao suporte e bom trabalho proporcionado pela Na Moral produções, mesma equipe que há anos acompanha Marcelo D2 e o Planet Hemp. Para dar sequência ao clima família do show, BK chama Akira Presidente, também conhecido como Father. Depois de soltar clássicos que enlouqueceram o público como “Julius” e “Castelos e Ruínas”, mais uma participação especial: Felipe Ret, cantando “Nas Esquinas”, canção lançada naquela semana.

Para cantar “Titãs” o DJ pediu as luzes do celular, com todo respeito, e recebeu, além disso, uma chuva de coro. Todo mundo cantou junto “eu não canto Rap, eu canto néctar”, enquanto os mais emocionados ameaçaram pupila marejada.

E aproveitando a leva mais apaixonada do show, o MC acompanhado por Jonas Profeta e DJ, avisou o seguinte: “Essa música é sobre relacionamentos complicados. As vezes dá errado, mas as vezes dá certo. Quando dá certo a gente canta essa aqui”, para introduzir “Planos”, mais uma do álbum Gigantes. Já eram 1:11 no fim dessa track e o portal se abriu para mensagem de liberdade. “Respeito a todas as formas de amor”, lembrou BK.

Dando tônica às canções, virou o disco. “Agora essa é para aquele relacionamento de sextou”, brinca entoando a animada e irresistível “Jovens”, invocadora da festa. BK deu espaço para o parceiro, produtor, dobra e amigo Jonas cantar sua canção própria. E nos minutos finais do show recebeu mais uma participação especial para entoar um hino em nome dos bairros Catete, Glória e Lapa, juntos e misturados, fechando o show com astral devidamente repousado no ombro de gigantes, ou seja, lá no alto.

D2 - Sinônimo Subversão!

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Se por algum segundo, alguém duvidou qual seria a ordem do line-up, após o show percebeu que não poderia ser diferente. O sagaz homem fumaça, tal de Marcelo Marcelo_D2_Circo_Voador_20_12-2019_FOTO_Lorena_BrandPeixoto, traz para o palco não só uma lista grande de hits, mas também uma banda repleta de monstros, além de uma verdadeira aula de representatividade contracultural. Basta dizer que, nesse show, o “Ei Bolsonaro vai tomar no cu” veio logo de início. À vontade no palco, contando com Sain na segunda voz e grande elenco: DJ Nutz nos pratos, bateria de Daniel Conceição, piano e baixo eletrônico por Luiz Otávio, mais uma dupla comandando os instrumentos de sopro. Na jam de apresentação dos músicos, ele celebra: “Rapaziadinha gosta de ouvir um Jazz enquanto fuma um”, brinca D2.

A voz que sempre faz questão de lembrar a importância dos “arquitetos da música popular brasileira”, não tem como não ser confundido com um deles. Afinal de contas, ele pavimentou a estrada para os artistas como Sain, BK e muitos outros – sem falar na influência para além da música, extrapolando aos eixos políticos e comportamentais. D2 começou o show embalando canções novas do álbum “Amar é para os Fortes”, acompanhadas com muita felicidade pelo público presente. “A primeira vez que toquei no Circo foi em 93/94. Sempre quis tocar aqui. Sempre quis ver meu filho tocando aqui. A primeira vez do Stephan no Circo ele tinha 3 anos, apresentando a ‘banda do meu pai, o Planet Hemp’”, lembrou Marcelo, explanando a idade do Sain. Nesse clima de memória, a faixa “1967” serviu como homenagem ao amigo e skatista Robson, que partiu recentemente.Marcelo_D2_Circo_Voador_20_12-2019_FOTO_Lorena_Brand

A segunda parte do show é destinada às pedradas contidas no álbum “Nada Pode me Parar” (2013). Tocam “Eu Já Sabia”, “Está Chegando a Hora” e “Você diz que o Amor não Dói”. Já o terceiro tomo da ópera foi preenchido com os hits que o consagraram, como a bendita mistura do rap com batucada, proporcionado pela “Maldição do Samba” mais aquela indispensável lembrança: “Eu represento os maiores maconheiros do Brasil: Planet Hempa!”, diz D2 em alto bom som.

Por fim, uma mistura boa com “C.B (Sangue Bom)”, parte de “Canto da Sereia” e excelência no instrumental. Já batia três em ponto da matina quando D2 bradava que a “maior partideira que o Brasil já teve: Jovelina Pérola Negra”. E para fechar, mais um hit imortalizado pelas transmissões de clipes da MTV, a emblemática e inspiradora “Qual É”. D2 falou diversas vezes sobre a felicidade de tocar no Circo Voador e ainda puxou um “Ei Bolsonaro...” (vocês já sabem o quê) em ritmo de samba, introduzindo a parceria com Seu Jorge, “Pode Acreditar”.

Como de praxe, mais um showzaço de D2 e toda sua família. Nos resta mesmo agradecer por todo o tempo de trabalho prestado ao universo da música. Seus sons fortificaram a cultura negra, enraizaram o Rap no Rio, abriram alas para militância canábica, deram abrigo às novas gerações e, até hoje, fazem as casas de show de norte a sul tremerem de tanto “fazer barulho”. É sinistro, é cascudo, é mestre em embrasar os palcos. É patrimônio da resistência cultural. Sua família, as boas companhias, entre músicos, produtores e amigos. Obrigado por tudo, Marcelo D2, ontem e sempre. – Cadu Oliveira!

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